terça-feira, 1 de março de 2011

O barato da barata

Um casal de amigos combinou de ir ao teatro. Uma comédia onde a temática é a relação entre um homem e uma mulher em que os podres da relação começam a ser expostos - o que era para ser para sempre... está com os seus dias contados.

Bem, voltando ao casal de amigos: tudo combinado. Ela passaria em frente ao prédio dele para pegá-lo e iriam no carro dela para o teatro.

Para agradecer ao convite ela resolveu presenteá-lo com um bolo que ela mesma fez e meia dúzia de tangerinas vindas diretamente do sítio de seus pais, sabendo de antemão que ele gosta tanto da fruta quanto do bolo. Coloca-os em uma bolsa de uma grife famosa. Ao chegar à garagem coloca a bolsa no chão do seu carro, atrás do banco do motorista. Entra no carro. Liga o rádio. Está contente, pois há muito tempo não via esse amigo de quem ela gosta tanto.

Ao chegar em frente ao prédio, liga para ele que solicita que ela suba, pois ainda não está pronto. Ela estaciona o carro, pega a bolsa com o pequeno agrado e sobe. Ele abre a porta abotoando a camisa e, em seguida, vai até o corredor que dá acesso aos quartos e banheiro, abre a porta do armário e retira um par de sapatos. Ela aproveita e entrega a bolsa com o presente. Ele mostra-se muito contente, abre a bolsa e retira uma tangerina.

Nesse momento, a amiga vê uma barata na lateral externa da bolsa, exatamente sobre a inscrição da logomarca famosa. A barata desce, cai no chão e entra no quarto de seu amigo, antes que pudesse ser pisoteada. Foi tudo muito rápido.

Ele entra em desespero.

A barata entra embaixo da cama o que aumenta o descontrole do amigo que vai ao banheiro e volta com um frasco acionando-o em direção ao espaço entre a cama e o chão.

Ele começa a gritar:

- Na minha casa nunca entrou esse tipo de barata.
- Você trouxe esse inseto asqueroso para a minha casa.
- Você tem que matá-la!

Ela fica em uma situação muito desconfortável, em uma verdadeira saia justa, que era o que ela estava usando: saia justa preta, uma blusa branca com babado e lógico, uma sandália de salto bem alto.

Nesse momento ele já não grita, ele berra!

- Você tem que matar essa barata!
- Não conseguirei dormir se souber que ela pode estar viva aqui dentro da minha casa, em especial no meu quarto.

Enquanto isso, continuava a acionar o frasco do suposto inseticida.

Na tentativa de acalmá-lo, ela pediu para ele se retirar. Foi quando ela percebeu que ao invés de pegar o frasco de inseticida, seu amigo pegou o frasco de creme de barbear e lançou todo o conteúdo embaixo da cama, que ficou um verdadeiro tapete branco, parecia neve, uma neve escorregadia.

Constatando a troca, ele trouxe o inseticida e aplica em direção à cama.

Seu amigo estava transtornado!

Ela, então, pediu para que ele fosse para a sala.

O chão do quarto estava um horror: molhado, escorregadio, com um cheiro forte de inseticida. Ela, primeiramente, abriu a janela. Em seguida, retirou as sandálias, pulseiras, anéis, prendeu os cabelos. Puxou a cama e conseguiu visualizar a barata que estava visivelmente intoxicada, mas viva, atrás da cabeceira da cama.
Ela matou a barata com uma chinelada e com um lenço de papel retirou o inseto morto, jogou no vaso sanitário e acionou a descarga.

O amigo continuava na sala, andando de um lado para outro e perguntando se ela já tinha matado a famigerada barata, o que foi finalmente confirmado por ela. Seu pânico era tanto que ele não acreditou, levantando dúvida sobre a morte do inseto.

Ela pegou um pano de chão, rodo e começou a limpar toda a lama que se formou com o creme de barbear e o inseticida. Quanto mais ela limpava, mais espuma se formava. Depois da faxina inesperada, ela estava suada, descalça, o cabelo despenteado...

O amigo pegou a bolsa com o presente e jogou na lixeira do prédio.

O clima ficou tenso. Ela tentou se desculpar, dizendo que a barata não estava nem no bolo que foi embalado por ela minutos antes de sair de casa, nem nas tangerinas que ela pegou uma a uma para colocar na bolsa que estava guardada em seu armário. A conclusão que chegou é que a barata só poderia estar no carro e entrou na bolsa no trajeto da casa dela até a dele.

Diante de toda a situação ela sugeriu cancelar o teatro, mas ele, ainda transtornado, disse que não. Afirmou que não iria mais no carro dela e sim no dele. Ela, na tentativa de amenizar todo aquele desconforto, concordou.
Pediu uma toalha, tomou um banho e tentou se arrumar como antes de toda aquela confusão, mas o brilho da noite havia desaparecido.

Na garagem, ao sair com o carro, ele arranhou a lateral na pilastra, o que aumentou ainda mais a tensão.

Ela estava torcendo para a hora passar. Não conseguiu prestar atenção na peça. A noite ficou sem graça.

Finalmente, ao saírem do teatro, na calçada de uma rua famosa da Zona Sul carioca, no bairro de Ipanema, uma barata gigantesca veio em direção aos dois que saíram correndo e ele, como era de se esperar, ficou cego de raiva, esbravejando e completamente desnudo diante de um simples inseto repelente.

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